Avanços e recuos

Apesar de, por vezes, ser inevitável, apesar de fazer parte de ser autor, detesto ter de voltar atrás para reescrever uma história ou parte dela. Não me refiro aqui ao processo de revisão, no qual há sempre ajustes e rectificações a fazer. Compactuo bem com isso porque, nesses casos, estou a trabalhar para melhorar uma história terminada. O que eu não suporto é ter de fazer isso a meio de uma história, como aconteceu com o primeiro episódio da minha série literária O ÚLTIMO.

Achava eu que estava muito avançado em relação aos meus comparsas de escrita – um com o seu MAL HUMANO, o outro com as suas INTERSECÇÕES -, ambos a perder tempo precioso com prólogos desnecessários. Achava eu que eles estavam a perder tempo com isso. Mas não estavam, nem estão. Os seus prólogos não são apenas pequenas histórias para apresentar os seus personagens, são também uma forma de testar a receptividade do público e ver que caminhos se podem trilhar. (É claro que ajudava se o público fosse mais efusivo na sua receptividade, mas tudo bem.) Estou de perfeito acordo com isso. Aliás, o tal episódio que eu deixei a meio para começar a escrever outro estava a ser escrito (também) como se fosse um prólogo.

Nesse episódio que ficou em suspenso, o protagonista era apresentado como alguém sem esperança, alguém que perdeu tudo, até que acontece algo inesperado que o obriga a lutar pela sua vida. A minha intenção era aos poucos ir descobrindo o passado dele para que o leitor percebesse as suas motivações. Foi então que me apercebi que podia alcançar esse resultado de forma mais eficiente seguindo o exemplo dos meus colegas: escrevendo um prólogo.

E assim passei as semanas e os meses seguintes a tomar notas e a deixar as ideias marinar. No passado Sábado, finalmente, comecei a escrever essa história. O protagonista é o mesmo, mas pela forma como é apresentado quase que parece outro. E de certa forma é. Este é o homem antes de perder tudo, o homem que não sabe o que futuro reserva, o homem ignorante. O homem que quando descobrir a verdade, vai desejar ter continuado na ignorância.

Tal como o meu personagem, eu estava na ignorância, convencido de que bastava revelar um pouco do seu passado aqui e ali para que o leitor fosse construindo um retrato na sua cabeça. Essa situação não fica excluída por eu fornecer mais detalhes, pelo contrário. As informações que aqui apresentarei servem duas finalidades. A primeira é apresentar ao leitor o antes de tudo. Este é o momento em que o meu protagonista tem tudo e será para este momento que ele tentará regressar ao longo da série. A segunda finalidade é ajudar eu próprio a conhecer melhor o(s) meu(s) personagem(ns).

Porque a verdade é que os personagens são como as pessoas. Até fazermos perguntas incómodas, até os colocarmos em situações extremas, até os ameaçarmos com os piores cenários, não os conhecemos minimamente.

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