O Diabo ri-se

Antes de me começar a dedicar a 100% à escrita de O ÚLTIMO, há duas histórias que precisam de ser terminadas. Uma delas intitula-se O DIABO RI-SE e começa assim:

 

«Simão vivia sozinho, na companhia de livros velhos e um baralho de cartas. Não tinha memória de um único dia na sua vida em que alguém não tivesse feito pouco de si. Fosse pela sua maneira de falar, fosse pelo seu ar franzino, por ser um desastrado de primeira, ou por ter mais de trinta anos e nunca ter estado com uma mulher, razões não faltavam. E quando escasseavam era fácil olhar para ele e inventar novas opções.

Não se lembrava de um único dia na sua vida em que alguém não tivesse feito pouco dele, embora o mais correcto fosse dizer que isso era tudo quanto se lembrava. Não se lembrava há quanto tempo estava naquela casa, há quanto tempo estava no mesmo emprego, se alguma vez tinha tido outro emprego, não se lembrava de nada. Seria fácil saber essas coisas. Bastaria dar uma olhada ao seu contrato de arrendamento, ao seu contrato de trabalho, e qualquer outra documentação. Era só ele querer.

Só que ele não queria. Ou melhor, querer até queria, mas faltava-lhe o ânimo, a motivação. Ser o alvo de permanente chacota não importava onde ia era suficiente para desmotivar qualquer um.

Naquela manhã de Maio, quando acordou ao som de uma música que gostava, Simão teve a ousadia de pensar que aquele dia seria diferente. Aquele seria o dia em que não gozariam com ele. Sentiu-se motivado por aquela música. Não sabia que música era, nem lhe interessava saber. Algo lhe dizia que não se iria lembrar disso quando o dia chegasse ao fim.

Saiu de casa, apanhou o autocarro mal chegou à paragem e teve a sorte de apanhar um lugar vago. Teria de viajar de costas, mas isso não o incomodava quando à sua frente estavam beldades que pareciam boas demais para serem reais.

Mas eram. E estavam só a olhar para ele, a cochichar sobre ele. Tentavam disfarçar, só que ele não era parvo nenhum. Faziam-no de parvo, tomavam-no por parvo, mas isso não o tornava um parvo. O grande problema de Simão era não conseguir reagir. Se a provocação fosse verbal, faltavam-lhe as palavras; se fosse física, faltava-lhe a força. Não obstante, era um bom observador — um excelente observador, aliás — e não era preciso muito para perceber que aquelas duas, aos risos e aos cochichos, estavam interessadas nele.

Simão não reparou em que momento é que os risos das duas beldades se tinham transformado em risos de chacota. Talvez tivesse sido quando elas começaram a apontar para ele, ou quando os outros passageiros se começaram a rir também. Contagiado pelo riso, Simão riu-se também. O dia tinha começado tão bem, era impossível estarem a rir-se dele.

Ao fim de um bocado, a vontade de rir foi suprimida pela curiosidade de saber o motivo do riso. Foi aí que se apercebeu que mais ninguém parecia preocupar-se com isso.

Talvez por ele ser o único que não sabia.

De imediato olhou para a roupa que trazia vestida, procurando por alguma nódoa ou rasgão que pudessem ser suficientemente óbvios para suscitar tamanha risada. Encontrou uma nódoa de café na camisa, descobriu que havia saltado uma casa ao abotoá-la e tinha a braguilha aberta. Nada a fazer quanto à nódoa; corrigiu o resto e continuou a sua busca.

As beldades saíram, porém o gozo continuou. O gozo continuaria sempre, não importava se ele descobria ou não o seu motivo. Não havia nada a fazer a não ser esperar que passasse.»

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