A Imagem

Não posso dizer que tenha tido uma vida pacata. Desde tenra idade que fui habituado a lidar com complicações de toda a espécie, a nunca baixar os braços, não importa o obstáculo. O problema é que existem certos obstáculos que são um pouco mais difíceis de contornar, quanto mais de ultrapassar. Há cerca de doze anos (dois anos, no vosso mundo) levei a cabo aquela que viria a ser a minha última lista de trabalhos. Sem entrar em grandes detalhes, digamos que, hipoteticamente, essa lista continha os nomes de cinco pessoas cuja estadia neste mundo estava nas minhas mãos cancelar. Como não quero perder muito tempo a falar sobre isso, uma vez que esse não é o tema que me traz aqui hoje, se quiserem saber um pouco mais podem sempre ir aqui e aproveitar enquanto Um Cappuccino Vermelho está assim tão barato (sei de fonte segura que não ficar assim para sempre). Está lá tudo.

Peço desculpa pela publicidade encapotada. Não é minha intenção iludi-los. Continuando, há doze anos aconteceu algo que mudou a minha vida por completo. Algo que abalou o meu mundo de tal forma que foram precisos vários anos só para ganhar coragem de voltar a tentar. Na véspera de publicar o já referido Um Cappuccino Vermelho, fui vítima de um atropelamento que me deixou paraplégico. Para alguém que fora criado – treinado, talvez seja um termo mais adequado – para ser desembaraçado, independente, para saber usar o corpo como uma arma letal, não poder controlar o seu próprio corpo foi um castigo insuportável. (Escrevi “foi” porque esse tempo já lá vai, mas adiante.) E tudo porque sempre fiz questão de ter a última palavra no destino dos meus personagens. Aceito sugestões, reparos, mas ninguém me diz o que fazer numa história. Tenho trabalhado com vários editores ao longo da minha carreira, uns mais empenhados que outros, e o processo funciona sempre na base do diálogo, nunca pela imposição.

Pois foi exactamente isso que um certo sujeito tentou fazer. Abordou-me num café, fingiu ter uma arma e procurou intimidar-me a escrever o final que ele queria para o meu personagem. Confesso que, na altura, estava num impasse. O final que ele queria que eu escrevesse era um dos dois finais em cima da mesa. Escusado será dizer que optei pelo outro. Coincidência ou não, pouco tempo depois viria a ficar preso a uma cadeira de rodas. Mesmo assim não me arrependi, nem me arrependo. Se pudesse, voltava atrás e fazia tudo igual. O meu mentor costumava dizer que somos tão grandes quanto os obstáculos que enfrentamos. Não poderia dizer melhor. O facto de não poder usar as minhas pernas, de não pode andar, não significava que estivesse preso às minhas frustrações. Demorei um pouco a perceber isso, mas esse momento lá chegou. (Outra lição a reter: perseverança não é o mesmo que celeridade.)

O recuperar da minha mobilidade sucedeu ao mesmo tempo que descobri quem era o homem por detrás do tal acidente. Foi também nessa altura que fiquei saber que o protagonista do meu romance Um Cappuccino Vermelho, um escritor chamado João Dias Martins, era alguém que existia mesmo. Tal como na minha história, ele tinha sido preso por suspeita de estar envolvido em cinco homicídios. Todos os detalhes batiam certo, menos um: o fim. De alguma forma, o tipo que me abordara no café tantos anos antes conseguira, não só tornar real uma história fictícia, como também deturpá-la. Atropelarem-me é uma coisa, mexerem numa história minha é outra completamente diferente. Não pensem, contudo, que foi por vingança que parti em busca da resolução desses mistérios. É verdade que tinha uma vontade tremenda de meter a cara de um certo alguém para dentro, porém o que mais me animava, o que mais me motivava, era poder provar a mim próprio que não estava vencido, que aquilo que eu considerava ser um obstáculo poderia ser transformado numa vantagem.

Se quiserem saber tudo ao pormenor, dêem um salto à Biblioteca Municipal da Moita, no próximo dia 25 de Outubro, pelas 21h30. Vai lá estar um escritor chamado Joel G. Gomes, que irá apresentar o seu segundo romance, intitulado A Imagem. A minha história (e outras) estará nessas páginas. Conto convosco lá.

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