O HOMEM QUE NÃO ESTAVA LÁ

Em pouco mais de quinze anos como escritor semi-profissional não é a primeira vez que escrevo um conto, mas é a primeira vez que publico um. Opiniões?

O HOMEM QUE NÃO ESTAVA LÁ

Sem saber porquê, entrei no bar e dirigi-me de imediato ao balcão. Não fazia ideia das horas, mas palpitava-me que não passaria muito das três da tarde. Sentei-me e esperei que o empregado dessa pela minha presença. (Prefiro lembrar-me da história assim a admitir que ele me ignorava de propósito.) Este, ligeiramente curvado, passava um pano – supunha que húmido, embora saber isso não me interessasse muito – nas mesas; decerto mais sujas de pó, do que de comida.

Olhei à minha volta. Tinha tempo para esperar. Ou para ser ignorado, conforme o caso. A decoração do bar era toda em madeira; ou, pelo menos, imitação de razoável qualidade. Aqui e ali, estava um daqueles quadros em que figuras (as)simétricas formam uma face, um corpo ou um outro objecto inanimado. Li num livro ou numa revista, não me recordo bem onde, o nome disso. Quer dizer, acho que li. Talvez seja eu na minha ignorância a julgar que uma coisa assim tem um nome próprio. Quer dizer… Deve ter, não é? Nós, humanos, temos tendência para dar nome a tudo. É como se sem nome as coisas não existissem.

Tossi, sem intenção premeditada de alertar alguém. O que é certo é que, com ou sem intenção, o empregado lá deu pela minha presença. Como eu havia esperado pouco para ser atendido – isto, no entender dele, não no meu – pediu-me para esperar mais um pouco. Só até acabar o serviço.

Acedi ao seu pedido. Não com prazer, que fique isso bem claro, mas com relativa facilidade. Vistas as coisas, não tinha mesmo nada para fazer. Podia esperar o tempo que fosse preciso. Sentia-me como se tivesse tirado o dia a tarde para ir às Finanças ou à Segurança Social tratar de qualquer coisa. Podia esperar o dia todo. Ou melhor, podia, mas não queria.

O empregado acabou – ou pausou – a sua tarefa de remoção de impurezas várias, pendurou o pano nas costas duma cadeira e passou para o outro lado do balcão para me atender.

Olhei para a prateleira e vi que, além dos lotes de café normal, tinham também disponíveis lotes de outros países. Pedi ao empregado um à sua escolha. O seu favorito. Respondeu-me que não tinha, que não bebia café. Um qualquer, então.

Enquanto ele tirava o café – não cheguei a ver qual o lote escolhido, nem me apeteceu perguntar – pedi-lhe que ligasse a televisão. Ele colocou a chávena fumegante num pires à minha frente, desviando ligeiramente a colher, pegou no comando guardado debaixo do balcão e acendeu a televisão. De seguida, regressou ao meu lado da fronteira e retomou a sua tarefa de limpeza das mesas.

Em cima do balcão estavam dois potes com pacotes de açúcar. Adoçante nem vê-lo. Tirei um pacote, adicionei a quantidade mínima desejada e mexi até achar que era suficiente. Despi o casaco e pousei-o no banco ao meu lado, tendo o cuidado de dobrá-lo de modo a que não caísse no chão.

Na televisão estava a passar um dos habituais programas de início de tarde. Pedi ao empregado se podia mudar de canal, para um de notícias. Respondeu que só tinha quatro canais disponíveis. Sabendo eu da oferta promovida pelos outros três canais àquela hora, decidi ficar-me por ali. Ao menos, aquela apresentadora estava bem provida ao nível da caixa toráxica. Sempre tornava a coisa mais suportável. Reconheci um dos convidados do programa em questão como sendo uma figura proeminente do nosso jet set (seja lá o que isso for). Não que isso tivesse algum interesse para mim. É apenas uma daquelas coisas que se sabe.

Só então provei o café. Havia arrefecido entretanto mas, ao longo dos anos, habituara-me a tomar o café frio. Não é que gostasse; só que há uma altura em que, mesmo não gostando das coisas, conseguimos suportá-las porque o corpo e a mente já se habituaram a elas. Sorvi-o em golos pequenos, intervalados com relances à televisão e ao decote generoso da apresentadora.

Não sendo esse o seu propósito, o café ajudou-me a relaxar um pouco. Senti a tensão acumulada dos últimos tempos começar a desanuviar. Uma estranha tranquilidade apoderava-se de mim; efeito contrário, quase profano, ao que seria de esperar duma bebida estimulante.

Pousei a chávena vazia e perguntei ao empregado se não tinha nenhum jornal que eu pudesse ler. Disse que sim, que estava debaixo do balcão. Era só esticar o braço. Assim fiz. Comecei a desfolhá-lo sem prestar atenção às manchetes. Avancei até à secção que me interessava: a necrologia. Por motivos pessoais e não por curiosidade mórbida. Li os vários obituários. Aquele que me interessava mais não estava lá. Era pena. Gostaria de poder ler o que foi que eles escreveram. Se calhar houve algum atraso nos Correios ou isso e o texto não chegou a tempo. Pensando melhor, ainda para mais com a Internet, o mais provável era que nem tivesse sido enviado.

O velório tinha sido ontem. Hoje seria, ou melhor, estava a ser o funeral. Era suposto eu lá estar. Sei que vão notar a minha ausência, mas que se lixe. Sempre fui uma pessoa assídua e pontual. Nunca faltei a um compromisso assumido. É a primeira vez que o faço. E se o faço é porque tenho motivos para tal.

Não me apeteceu ir.

Era um motivo tão bom como qualquer outro. Além disso, eu não aceitei nenhum convite. Obrigaram-me a aceitar e eu, obrigado, não obrigado. Pelo menos era um motivo honesto. Motivos honestos é algo que já não se encontra muito; respeitem-me por isso.

Continuei a ler o jornal com o intuito de me inteirar dos últimos acontecimentos.

O empregado terminou o seu serviço e regressou ao seu posto do lado de lá da fronteira. Pegou na loiça à minha frente e colocou-a no lava-loiça. Quando tivesse mais, logo lavava, deu a entender. Só que não disse, eu é que supus. Talvez erradamente. Serviu-se duma imperial e passou novamente a fronteira para se sentar ao meu lado.

Senti que era o momento certo para dizer qualquer coisa. O problema era que não tinha nada para dizer e, julgando pelo aspecto do local, as oportunidades para iniciar uma conversa não deviam ser muitas. Talvez ele fizesse por isso, limitando-se a servir os clientes e pouco mais; talvez não gostasse de conversar e preferisse não ser incomodado. Paciência. Também havia muita coisa que eu não gostava e que tinha de fazer. E neste caso fazia-o, não por implicância, mas por impulso. Um estranho impulso que era tão contrário à minha natureza como beber café para me acalmar.

Pousei o jornal e perguntei-lhe se era costume o bar estar tão vazio. Ele disse-me que aquilo era uma zona pouco frequentada, que as pessoas só paravam ali quando não sabiam para onde iam. Cliente que sai, não torna a entrar, disse. Muitos não sabiam sequer que o sítio existia. Só quando era preciso.

Partilhei com ele algumas ideias sobre como divulgar mais o bar e passar a atrair clientes de forma rápida e regular. Comecei por explicar os diversos meios de divulgação que tinha ao seu dispor, os custos que teria, os ganhos. Tudo hipoteticamente, sublinhei. Sugeri-lhe alguns slogans. Nada por aí além, frases simples, feitas no momento. Com tempo, assegurei-lhe, conseguiria fazer melhor.

Perguntou-me se eu estava na área da publicidade. Eu disse que sim, estava. Mas, infelizmente, continuei, estava já afastado desse mundo.

É pena, disse ele. E pareceu ser sincero. Mais sincero do que quando aceitou que lhe falasse sobre promoções e divulgações. Deixara-me falar por favor, mas como eu não lhe pedira nada, não me sentia minimamente incomodado.

Já se decidiu, perguntou ele.

Não tinha nada para decidir. Ou tinha?

Por minha decisão faltei a um funeral a que era suposto ter ido. Estava tenso, decidira ir dar uma volta, tomar um café, desanuviar. Tinha decidido fazer tudo isso. De momento não havia mais nada para decidir.

Tornou a perguntar acerca da minha decisão, como se fosse sua a responsabilidade de me questionar e saber.

Decidir o quê?

Para onde vai depois de sair daqui.

Para casa.

Já é tarde para você ir para casa.

Nunca é tarde para ir para casa. Vou ver a minha mulher e os meus filhos. Eles estão à minha espera. Não me posso atrasar.

Estão mesmo?

Imagens sangrentas de corpos mutilados, enfiados em sacos térmicos numa arca congeladora, arrumados junto a pacotes de ervilhas e bifes de vacas em sacos individuais, invadiram o pequeno ecrã de televisão. Senti-me enjoado. Pela acção em si também, mas sobretudo por ser eu o autor daquela carnificina. De machado na mão e olhar vazio de humanidade, cortava membros, decepava troncos. O sangue jorrava dos corpos como fontes. Golpes certeiros calavam os gritos que apenas eu ouvia.

Era um pesadelo. Só podia ser.

O empregado olhava para a televisão. De certeza que não via o mesmo que eu, caso contrário não estaria tão tranquilo. Sentia o meu coração acelerar, as forças a abandonarem-me como se fosse perder os sentidos. Mas não perdi. Aguentei. E continuei a ver. Era incapaz de suportar o horror, porém era também incapaz de o ignorar por muito que tentasse.

Na televisão, dei um último golpe num corpo já sem vida e pousei o machado. Vi-me dirigir à cozinha, lavar as mãos, preparar uma sandes e uma bebida, regressar à sala, sentar-me no sofá, junto do torso de um dos meus filhos – era difícil saber qual – e começar a comer. Acendi a televisão. Na televisão tornava-me a ver, desta vez a entrar no bar. Era um ciclo sem fim aparente.

E agora, já se decidiu, tornou o empregado a perguntar.

Não conseguia responder. Só me interessava saber o que estava a acontecer. Que sítio era aquele?

Isto é só um local de passagem para os indecisos.

Aquilo não era real. Nada era real. Eles estavam vivos. Tinham que estar.

Vai demorar muito? Parecia irritado. Tenho mais que fazer.

Como vim aqui parar?

Da mesma maneira que os outros. Sem saber. Só quem não sabe para onde vai, ou quem não sabe que tem de ir para algum lado é que vem aqui ter. Este local é um iman para os indecisos. Usou o adjectivo deixando ver que já se começava a cansar de o dizer tantas vezes.

Mas eu sabia. Sabia e tinha a certeza que o que sabia era verdade e não apenas fruto da minha imaginação. Sabia que tinha saído tarde de casa. Sabia que o resto já tinha saído antes de eu acordar. Sabia que era suposto ir a um funeral. Sabia que em vez disso tinha decidido ir para ali.

Mas porquê?

Nem a minha casa, nem o meu local de trabalho ficavam ali perto. Sei que procurara um sítio fora da minha zona, um sítio onde ninguém me conhecesse, onde pudesse estar sem ter pessoas a perguntar então, que fazes aqui? Passara por outros sítios antes de encontrar aquele só que não havia passado da porta.

O que me trouxera ali?

Teria sido apenas por ser uma zona onde me pudesse isolar? Acalmar? Reflectir? Ou seria um destino traçado, independente do caminho que percorresse, das escolhas que fizesse?

Era suposto eu ter ido a um funeral hoje, disse ao empregado.

Quem foi que morreu?

Foi…

Não me lembrava.

Foi alguém muito próximo. Disso tenho a certeza.

As imagens regressaram ao ecrã, accionadas pelo momento, ou pelo subconsciente ou pelo quer que fosse. De novo o horror, desta vez com um pequeno extra. Deitado na banheira, de água a correr, eu passava a lâmina do machado pelos meus pulsos. Pousei o braço esquerdo no rebordo da banheira e decepei-o com um golpe rápida. De cabeça tombada para trás, o sangue misturava-se com a água. A imagem parou ali.

Olhei para a minha mão esquerda. Na zona onde efectuara o corte estava uma costura que faria o Dr. Frankenstein parecer o melhor cirurgião plástico de todos os tempos.

Eu também morri?

Pode-se dizer que sim.

Que raio de resposta é essa? Onde está a minha família? O que foi que lhes fizeram?

Nós, nada.

Não era real. Não podia ser real.

E eu? Eu fiz alguma coisa?

Acabou de testemunhar as suas últimas memórias.

Não…

Eu disse que isto era um local para os indecisos tomarem as suas decisões.

Que sítio é este?

Não posso dizer. Apenas o posso encaminhar.

Ajude-me…

Aqui vêem os indecisos, cientes ou não de que têm um caminho a percorrer. Aqui eles revêem não apenas as suas memórias, como também os seus pensamentos.

Quer dizer que…?

A sua família continua viva. O que você viu antes foram os seus últimos pensamentos antes de…

Eu não os matei?

Não. Queria matá-los, mas resistiu ao impulso.

E agora?

Agora tem de decidir para onde vai quando sair daqui.

Só tenho duas opções, não é?

Cada um sabe de si. Uma vez feita a escolha, há apenas um caminho à nossa espera.

Nunca pensei que pudesse escolher. Para dizer a verdade, nunca acreditei que este sítio existisse.

É normal. Isto é o teste final. A escolha já foi feita por si. Isto é apenas uma mera formalidade.

Pensei no massacre, no suicídio, no percurso feito até ali. Relembrei partes e momentos da minha vida votados, entretanto, ao esquecimento. Tomei a minha decisão. Puxei da carteira.

Quanto é o café?

É por conta da casa.

Guardei a carteira.

Já se decidiu?

Já sim.

E?

Tenho a família à minha espera.

Levantei-me e dirigi-me para a porta. A rua continuava igual, com a diferença de que agora conseguia ver outros como eu que haviam preferido aguentar mais um pouco antes de partirem de vez. Vesti o casaco e comecei a caminhar, ignorando os olhares de outros que outrora pensaram como eu, imaginando o momento em que abrissem o caixão no cemitério. E então perguntei-me: Estaria eu lá?

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