Um novo início

Para os leitores que têm corrido todas as livrarias e mais algumas em busca dos meus livros mais antigos e não têm encontrado nada, tenho más e boas notícias. As más são que estão todos esgotados, as boas são que a minha editora está disponível para fazer novas edições. Devo avisar que isto não irá acontecer da noite para o dia – antes disso ainda quero fazer uma revisão profunda – mas tentarei que não demore muito.

Enquanto esperam, apreciem o novo primeiro capítulo do meu segundo livro, CRIME PROSCRITO.

 

Capítulo 1

O empregado tirou a imperial, colocou uma base com o logótipo do bar em cima do balcão, pousou o copo e afastou-se para atender outro cliente. Costa não agradeceu o serviço. Não porque fosse mal-educado, que não era, mas porque sabia que o seu agradecimento, no meio de toda aquela confusão, não seria escutado pelo empregado. Em vez disso, olhou para o copo.

Aquela não era a primeira imperial que bebia naquele estabelecimento, mas parecia ser, a avaliar somente pelo aspecto, a melhor imperial que aquele empregado jamais lhe havia servido. Provou-a: tinha uma boa dose de espuma, fofa e espessa, e escorregava que era uma maravilha. Talvez devesse mesmo um agradecimento ao empregado. Tinha tempo para isso. Quem ele esperava ainda não havia chegado.

Tomou mais um golo, ao mesmo tempo que desviou a sua atenção para a entrada do bar. Quem ele esperava havia chegado finalmente. Olhou para o seu relógio: onze e um quinze. Não iria subir ao palco antes da meia-noite. Se tudo corresse sem surpresas de maior, teria tempo para agir nas calmas. Ainda bem.

Se havia coisa que não gostava mesmo nada era andar à pressa.

O recém-chegado sentou-se ao seu lado e pediu uma cerveja. O empregado anunciou as várias marcas disponíveis na casa e o recém-chegado fez a sua escolha. A cerveja veio em garrafa verde e importada; recusou o copo e deu um golo valente.

Costa observou tudo isto pelo canto do olho e analisou a situação com cuidado. O recém-chegado escolhera uma cerveja de pouco volume, tanto de conteúdo como de teor alcoólico. Quereria isso dizer que iria beber só aquela ou seria aquela a primeira de várias?

Olhou mais uma vez para as horas. Dentro de poucos minutos, o recém-chegado iria receber um telefonema a informar de um acidente de viação envolvendo a sua esposa. Tinha tempo de terminar a sua cerveja com calma e assim fez. Além de não gostar de andar à pressa, também não gostava de beber à pressa. Após terminar, deixou algumas moedas em cima do balcão e saiu do bar.

No parque de estacionamento dirigiu-se para o seu carro e aguardou que o seu alvo—consultou os papéis que tinha escondido por cima das palas para lembrar o nome: Sertório Mendes, raio de nome—saísse do bar. Baixou o volume do auto-rádio até zero antes de o ligar; subiu o som com cuidado, só o suficiente para não estar mergulhado em total silêncio enquanto esperava.

Se havia coisa que não gostava era estar mergulhado em total silêncio enquanto esperava.

Na rádio, o locutor de serviço anunciava as notícias das onze e meia. Agachou-se e alcançou um estojo de madeira envernizada que trazia debaixo do banco. Quando a adquirira, a caixa não possuía qualquer tipo de tranca dado que era apenas uma caixa vazia, própria para guardar tralha. Como não era tralha que Costa guardava naquela caixa, instalou um fecho para prolongar a inviolabilidade da caixa. Não era o fecho mais eficaz do mundo, nem tão pouco a caixa resistiria se fosse atirada ao chão, mas um pouco de segurança era melhor que nenhuma segurança.

Inseriu a sequência de três algarismos que destrancava o fecho e abriu a caixa. O interior era forrado a veludo preto e abrigava uma Glock, um estojo de munições, um filtro silenciador, óleo lubrificante e equipamento de limpeza. A caixa trazia também uma faca de cabo preto, com uma lâmina de quinze centímetros bem afiada.

A pistola e a faca haviam sido uma espécie de prenda de boas vindas que recebera quando iniciara a sua carreira de assassino profissional. A caixa fora comprada por ele, que a adaptara àquela funcionalidade. O serviço noticioso terminara entretanto. Raio do homem que nunca mais saía! Onze e trinta e oito: já era tempo de ter recebido o telefonema. Teria este não sido ainda feito ou seria a notícia do acidente justa causa para beber mais algumas cervejas?

Quando tivera a ideia do falso acidente não lhe encontrara falhas; a sua cliente, a esposa de Sertório, também não. Na verdade, era suposto ser ela a fazer a chamada.

A porta do bar abriu-se de rompante e Sertório saiu a correr em direcção à sua carrinha de caixa aberta. Pelos vistos ainda gosta dela, reparou Costa. Só era pena a esposa ter contratado alguém para o matar. Enfim… Havia que encontrar conforto nas pequenas alegrias.

Sertório arrancou em segunda, provocando uma desagradável nuvem de poeira no chão de terra batida. Costa fechou a caixa, guardou-a debaixo banco, esperou que a visibilidade retornasse e só depois arrancou.

Mantendo uma distância segura, de modo a não o perder de vista, mas sem sem tornar óbvio que ia no seu encalço, seguiu-o por curvas e contra-curvas até ao centro da vila. No Largo Comendador Alves Diniz, Sertório seguiu pela Rua Pascoal Macedo. Costa atalhou pela Tenente Rocha Furtado e estacionou o carro a três números da casa de Sertório.

De acordo com o telefonema que recebera a sua esposa encontrava-se livre de perigo. Estava apenas internada para observação e precisava que ele passasse em casa para pegar uns papéis do seguro. Para evitar pontas soltas a chamada havia sido feita a partir de um hospital. Costa aceitara a proposta do acidente de viação, mas colocara como condição o acidente acontecer mesmo. Na eventualidade da polícia vir a investigar o crime, a não ocorrência do acidente seria logo visto como um ardil, o que colocaria Helena, a esposa conspiradora sob suspeita e, por consequência, ele.

Relutante de início, a falta de alternativas mais práticas e eficazes obrigou-a a aceitar.

Acrescentando o trabalho extra aos seus encargos, Costa furtara um carro e conduzira-o até um cruzamento onde Helena o aguardava no seu veículo. Eram quase dez da noite e estava a dar bola na televisão. Andava pouca gente na rua, o que era óptimo para os seus planos. Quanto mais gente para testemunhar pior.

O plano consistia em passar o sinal vermelho, dar um toque no outro veículo—o suficiente para causar danos ligeiros—e seguir viagem.

A poucos quilómetros dali, Costa escondera o seu carro. Abandonou o veículo furtado a alguma distância, limpou as suas impressões digitais e fez o resto do percurso a pé.

Já no seu carro seguiu até ao bar onde Sertório ia todas noites depois de jantar beber uma cerveja e ler o jornal.

Era um plano simples na sua concepção, mas o seu timing era tão exigente que as probabilidades de alguma coisa correr mal eram enormes.

Com a sorte do seu lado, Costa chocou com Helena a quarenta quilómetros por hora. Apesar de ligeiro, foi suficiente para lançar o carro de Helena a rodopiar. Por momentos pensou que ela iria mesmo perder o controlo do veículo e espetar-se contra uma parede. Se assim acontecesse, não havia nada a fazer. Também não se podia dizer que viria grande mal ao mundo.

Acompanhando o desenrolar da cena pelo espelho retrovisor, viu o carro de Helana parar em cima do passeio e Helena sair do veículo, abalada mas viva. Testemunhas do sucedido acudiam a Helena. Pressionou um pouco mais o pedal do acelerador e saiu da vila.

Na Avenida da Libertação, onde o casal Mendes tinha a sua moradia, o ambiente era calmo. A vila, já de si pouco movimentada, parecia parar no tempo durante a noite. A falta de oferta de diversão dentro dos limites da freguesia levava a que muita gente ficasse em casa.

Inclinando-se para o lado do pendura, abriu o porta-luvas e tirou de lá uma polaroid. As máquinas digitais já eram uma realidade, mas ele continuava a preferir aquela. Embora pesada, produzia uma fotografia nítida quanto bastasse para comprovar a execução do serviço.

No dia em que fosse julgado pelos seus actos, ninguém o poderia acusar de falta de zelo e brio profissional.

Pousou a máquina em cima do banco e retirou de novo a caixa guardada debaixo do banco. Pegou na pistola e no silenciador, acoplou-o e esperou.

Além do carro de Costa, só estava mais um carro estacionado. Os restantes estariam dentro das respectivas garagens ou noutro sítio qualquer. Ao carro de Costa e ao outro, juntou-se então o carro de Sertório.

Sertório desligou o motor e saiu sem trancar a porta. Abriu o portão pequeno e entrou em casa, desta vez fechando a porta atrás de si.

Costa aguardou meio minuto, só para ter a certeza de que Sertório não iria voltar atrás só para trancar o carro. Quando tal não aconteceu, pegou na pistola e na polaroid, abandonou o veículo e caminhou até à residência de Sertório. Abriu o portão pequeno e caminhou até à casa.

Debaixo do tapete à entrada, conforme combinado e não por hábito dos residentes da casa, estava uma chave que Costa mandara fazer a partir de uma chave que Helena lhe emprestara. Costa usou a chave para entrar na casa.

Guiado pelos ruídos de um Sertório frenético à procura de papéis que não existiam, Costa encaminhou-se para a sala de estar. Parou junto da ombreira da porta e puxou da pistola.

Olhou para o filtro silenciador e pensou se deveria ou não usá-lo. Um tiro sem silenciador atrairia muita atenção e poderia complicar bastante a sua fuga. Por outro lado, o uso de um silenciador daria àquela morte um tom demasiado profissional e premeditado a algo que ele pretendia que parecesse um azar do momento.

Sertório chega a casa, depara-se com um intruso e é morto de forma impulsiva. O velho infortúnio de estar na hora errada no local errado.

Desatarrachou o silenciador e guardou-o no bolso. Com o som do disparo em volume máximo, teria de agir e fugir depressa; não só para não ser apanhado, mas também porque estava quase na hora.

Tirou um pequeno espelho do bolso—propriedade da sua avó Orísia, e agachou-se. Através do espelho observou o interior do escritório: papéis por todo o lado, gavetas reviradas e atiradas ao chão e Sertório de nervos em franja. De costas viradas para Costa, não parecia ter nada ao seu alcance que pudesse ser usado como arma.

Perfeito.

Costa entrou no escritório e fez soltar o travão da pistola. O som seco e frio fez Sertório dar meia volta. A visão daquela arma apontada a si fê-lo largar as folhas que segurava.

Qu-quem? – perguntou surpreso. Até que, a seguir à surpresa veio o reconhecimento. – Você é aquele tipo lá do bar!

Excelente memória, pensou Costa. Só era pena não servir de colete à prova de bala. Este Sertório parecia ser mesmo um tipo decente, não um sacana traidor como a esposa. Merecia uma morte rápida. Apontou para o coração.

Espere! Eu não o conheço de lado nenhum! Porque é que está a fazer isto?

Oiça, não é nada contra si. Apenas tenho de o matar.

Não é nada? Mas vamos lá a ver que brinca–

Bang. E pronto. Caso arrumado.

Se havia coisa que ele não gostava era de pessoas que não sabiam manter a calma.

Havia muita coisa de que Costa não gostava. Muita coisa mesmo. Às vezes tinha que ser, outras não.

Fotografou o corpo de Sertório e guardou a foto no bolso.

O cenário estava montado. Agora só precisava de sair dali e regressar ao bar. Faltava pouco para subir ao palco e o público não gostava de esperar. Era uma das coisas que ele não gostava mesmo nada de fazer.

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