O Limite do Medo – Um Excerto

«Os passos sublinhavam a iminência do perigo. Olavo estava escondido num espaço exíguo, rezando para que não fosse descoberto. Com o aproximar do som, encolheu-se ainda mais—como se tal fosse possível—fechou os olhos e tapou os ouvidos para evitar ver e ouvir quem vinha para o matar.

Conseguira evitar aquele momento durante muito tempo—muitas vezes com grande sacrifício—até que, por fim, entendera que não havia evitado nada. Apenas prolongara o inevitável.

E o inevitável estava cada vez mais perto.

A porta abriu com um ranger irritante, quase em câmara lenta, apesar de ter as dobradiças bem oleadas, e bateu na parede com um estrondo que não fazia qualquer sentido perante as leis da lógica.

Indiferente às leis que acabara de violar e pronto a violar mais algumas, o assassino entrou na sala minúscula. Bem disposto pelo acto que estava prestes a cometer, começou a fazer girar a faca de mato enquanto chamava pela sua presa.

Onde é que está o meu pequenino? Onde está ele?”

Olavo fechou os olhos com mais força e tapou os ouvidos com mais força ainda. Era um homem de cinquenta e três anos mas, naquele momento, sentia-se como uma criança de cinco, aterrorizada e paralisada pelo medo.

Percorrendo a sala, o assassino foi verificando os possíveis esconderijos.

Está escondido, é? Olha que eu vou apanhar-te.”

A inevitabilidade da sua morte não era facto derivado da eficácia ou eficiência de quem o perseguia. O seu assassino podia ser a pessoa mais bronca do mundo, mas era difícil não ser apanhado quando não havia muito sítio bom onde se esconder.

Como qualquer bom assassino que se prezasse, o seu assassino—havia qualquer coisa de possessivo nisso—não espreitou dentro do armário, não viu debaixo do sofá: os chamados sítios óbvios. Em vez disso, sentou-se no sofá e fingiu lamentar-se:

Ele está mesmo bem escondido! Acho que não o vou conseguir encontrar…

quebrando o seu monólogo, cravou a lâmina na almofada do sofá e pressionou até ao fim. Ouviu os gritos de dor, abafados pelos estofos e quando sentiu que Olavo estava na iminência de partir para outro mundo puxou a lâmina, terminando com o seu suplício.

vivo.”»

O Limite do Medo, Fractalis Editora, 2000

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