Época Sombria – Um Excerto

«Tinha 27 anos quando o Sol desapareceu. Não sei que idade tenho agora porque é difícil contar os dias quando os dias já não existem. Apenas noite. Noite eterna, fria, desoladora. Sei quando é que tudo começou, só não sei há quanto tempo foi. Talvez tenha sido há um ano, talvez há dez, um mês. É impossível dizer.

Há zonas onde o Sol ainda brilha, zonas longínquas, inacessíveis, oníricas. Sei de quem tenha partido em busca desses lugares míticos, mas duvido que tenham lá chegado. Espero que sim, pelas suas almas. É uma viagem sempre sem regresso: em alguns (raros, quase não existentes) casos porque concretizam esse intento; noutros porque as sombras apanham-nos num instante.

Tenho saudades do calor do Sol, embora não reze muito pelo regresso da sua luz. Sei que é graças a ela que ainda sobra uma réstia de vida no planeta, só que não consigo imaginar tornar a ver a minha sombra, agora que sei o que ela é.

O que elas são.

Como foi possível nunca nos termos apercebido que as sombras que o Sol projectava eram na verdade criaturas vivas? Inteligentes? Malévolas? Parecia impossível destruir aquilo que não se podia tocar. Apesar disso, nós tentámos. Oh, como tentámos! Mas o que podíamos nós fazer senão desistir ou morrer?

Sonhei em morrer nessa altura. Não teria sido difícil. Só não o fiz porque, para mim, o Sol ainda brilha através dos olhos da minha mulher e do meu filho. É por eles que ainda aqui estou e enquanto aqui estiver não deixarei que nada de mal lhes aconteça.

Essa é uma promessa que faço todos os dias, porque o perigo nunca desaparece. O mundo é um lugar de sombras, sombras que tomaram o nosso lugar. A esperança de voltar a haver liberdade é ténue, mas existe. Um pequeno grupo de rebeldes continua a lutar contra um inimigo invencível. Embora admire o seu esforço, acho uma pura perda de tempo. Não sou pessoa de desistir, só acho que é escusado travar uma batalha que se sabe estar perdida antes de iniciar.

Por várias vezes tentaram convencer-me a aderir à sua causa. Recusei sempre. Não podia arriscar deixar a minha família desprotegida. Acreditava que a minha presença junto deles faria toda a diferença. No entanto, quando as sombras os levaram percebi que não há batalhas ganhas ou perdidas à partida. Não quando lutamos por aquilo que nos é mais precioso.»

Época Sombria, 1998

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